É muito comum que pais procurem o consultório preocupados porque ouviram um “clique”, “estalido” ou “tec” no joelho, quadril, tornozelo, ombro ou outra articulação do filho. A primeira dúvida costuma ser: isso significa que existe algum problema?
Na maioria das vezes, a resposta é não.
O estalido articular, isoladamente, costuma ser um fenômeno benigno e faz parte do funcionamento normal das articulações. Entretanto, em algumas situações, ele pode estar associado a doenças ortopédicas que precisam de avaliação especializada.
O que causa um estalido articular?
As articulações são estruturas complexas formadas por ossos, cartilagem, ligamentos, tendões, músculos e líquido sinovial. Durante o movimento, diferentes mecanismos podem produzir um estalido:
- Tendões deslizando sobre pequenas saliências ósseas.
- Liberação de pequenas bolhas de gás presentes no líquido sinovial.
- Mudanças na tensão dos ligamentos durante o movimento.
- Pequenos ajustes naturais entre as superfícies articulares.
Esses mecanismos são fisiológicos e podem ocorrer em crianças totalmente saudáveis.
Quando o estalido é considerado normal?
Na maioria dos casos, o estalido não representa nenhuma doença quando apresenta as seguintes características:
- Não provoca dor.
- A criança brinca normalmente.
- Não há inchaço.
- Não existe limitação dos movimentos.
- Não há mancar.
- O estalido ocorre apenas ocasionalmente.
É bastante comum que pais percebam esses sons ao trocar a fralda, durante alongamentos, ao levantar a criança ou enquanto ela pratica esportes.
Em quais articulações ele pode aparecer?
O estalido pode ocorrer em praticamente qualquer articulação:
- Joelhos
- Quadris
- Tornozelos
- Ombros
- Cotovelos
- Punhos
Cada uma dessas regiões possui tendões e ligamentos que podem produzir pequenos cliques durante o movimento sem que exista qualquer lesão.
Quando o estalido merece atenção?
Alguns sinais indicam que o estalido deve ser investigado por um ortopedista pediátrico:
- Dor persistente.
- Inchaço da articulação.
- Vermelhidão ou aumento da temperatura local.
- Dificuldade para caminhar.
- Claudicação (manqueira).
- Travamento da articulação.
- Sensação de que a articulação “sai do lugar”.
- Perda de movimento.
- Estalidos após um trauma importante.
Nessas situações, pode existir uma lesão ligamentar, meniscal, tendínea, cartilaginosa ou alguma doença inflamatória que necessita de diagnóstico adequado.
E quando o estalido acontece no quadril do bebê?
Essa é uma situação que merece uma observação especial.
Durante os primeiros meses de vida, alguns recém-nascidos podem apresentar um “clique” no quadril. Muitas vezes esse som é apenas um estalido benigno e não indica doença.
Entretanto, quando o exame físico demonstra instabilidade do quadril — especialmente durante as manobras realizadas pelo pediatra ou ortopedista — torna-se fundamental investigar a possibilidade de displasia do desenvolvimento do quadril (DDQ).
Por isso, qualquer dúvida em relação ao quadril do bebê deve ser avaliada por um profissional capacitado.
Crianças que praticam esportes podem apresentar mais estalidos?
Sim.
Durante a fase de crescimento, músculos e tendões nem sempre acompanham exatamente o ritmo do crescimento ósseo. Isso pode aumentar a tensão sobre algumas estruturas e favorecer pequenos estalidos, principalmente em crianças e adolescentes que praticam:
- Futebol
- Ginástica
- Dança
- Judô
- Basquete
- Vôlei
- Corrida
Na ausência de dor ou limitação funcional, esses estalidos costumam ser considerados fisiológicos.
É necessário fazer exames?
Nem sempre.
O diagnóstico começa com uma boa conversa e um exame físico cuidadoso. Na maioria das crianças com estalidos isolados, nenhum exame complementar é necessário.
Radiografias, ultrassonografia, ressonância magnética ou outros exames são solicitados apenas quando existem sinais que sugerem alguma alteração estrutural ou doença associada.
Existe tratamento?
O tratamento depende da causa.
Quando o estalido é fisiológico, não há necessidade de medicamentos, imobilizações ou restrições às atividades físicas.
Caso seja identificada alguma doença ortopédica, o tratamento será direcionado ao problema específico e pode incluir fisioterapia, mudanças na prática esportiva, uso de órteses ou, em situações mais raras, tratamento cirúrgico.
Conclusão
Ouvir um estalido nas articulações de uma criança pode assustar os pais, mas, felizmente, na maioria das vezes trata-se de um fenômeno completamente normal.
O ponto mais importante não é o som em si, mas sim os sintomas que o acompanham. Estalidos sem dor, sem inchaço e sem limitação geralmente não representam motivo de preocupação. Já quando estão associados a dor, dificuldade para caminhar, travamentos ou deformidades, é importante procurar avaliação com um ortopedista pediátrico.
A avaliação especializada permite diferenciar alterações benignas de condições que realmente necessitam de tratamento, oferecendo segurança para a criança e tranquilidade para a família.
